Artigos

O maior presente para nossas crianças

adrianaacPor Adriana Accorsi*
O trabalho realizado frente à Delegacia de Proteção a Infância e ao Adolescente – DPCA de Goiânia, durante quase nove anos, acrescentou muito à minha experiência de vida e profissionalmente como Delegada de Polícia. Foram inúmeros os casos que, junto com a equipe de policiais, atuei, conhecendo com propriedade a cruel realidade das crianças em situação de violência. Casos que possibilitaram aprofundar nas temáticas relacionadas aos direitos da criança e do adolescente.
Volta e meia, mesmo não atuando mais na DPCA, era convidada a falar dos direitos da criança e do adolescente em eventos, seminários, escolas. Levar ao conhecimento das pessoas e das próprias crianças seus direitos, falar dos tipos de violências sofridas por elas, sempre foram temas recorrentes. De uns tempos para cá tenho observado uma mudança na temática solicitada.
A demanda por informações sobre as crianças continua alta, porém, a temática  não é mais somente os direitos, solicitam também,  falar sobre os deveres das crianças e dos adolescentes. Os pedidos sempre vêm acompanhados de uma justificativa: “Estamos enfrentando problemas com as nossas crianças, com os nossos alunos. Elas acham que podem tudo, não conhecem limites e sempre que  referem ao Estatuto da Criança e do Adolescente, o entendimento delas é que só existem direitos e que estão isentas de serem punidas em caso de praticarem alguma ação delituosa.

É preocupante ouvir dos educadores esse tipo de lamentação. Cada vez mais, fica visível como nós pais, educadores, sociedade, poder público enfim, estamos perplexos diante da “falta de limites de nossas crianças e jovens”. Cabe aqui um questionamento: será falta de limites ou a ausência de uma educação baseada no cuidado, nos valores e princípios humanos?  Não podemos perder de vista que nossas crianças e jovens são reflexos dessa sociedade, que nessa correria desvairada, não tem mais tempo de cuidar delas. É mais fácil ceder aos caprichos, ou mesmo castigar, do que ensinar-lhes a ter limites. Educá-las, orientá-las a serem honestas, a valorizar pequenos gestos, mostrar o que é respeito, o que é ser solidário e tolerante demanda tempo, demanda esforço e não é um esforço solitário, é um esforço coletivo. A crise de valores que vivemos, também reflete na educação de nossas crianças, reflete no dia a dia das pessoas, reflete na nossa postura diante dos problemas sociais com os quais nos deparamos diariamente: a violência urbana, as injustiças sociais, o mau uso do dinheiro público.
Diz um velho ditado que a palavra convence, mas o exemplo arrasta. Qual o exemplo estamos dando para as nossas crianças? O fato delas se comportarem sem conhecer os limites, será reflexo dos exemplos que elas estão tendo dentro de casa? Nas ruas? Na Escola? Na televisão? Na postura dos políticos que nos representam?
Se quisermos para elas um futuro promissor, precisamos começar agora, investindo sim em educação de qualidade, e para, além disso, precisamos mudar paradigmas: Investir em uma educação com princípios éticos humanos, ensiná-las a regra de ouro, de respeitar os outros, assim como queremos ser respeitados. Resgatar e  fortalecer as relações humanas. Não vejo sinceramente, na perspectiva das políticas públicas em favor da qualidade de vida de nossas crianças, outro caminho que não seja a humanização das relações . Só assim teremos condições de pensar o futuro de nossas crianças, numa perspectiva de vida saudável, com educação, sem violência.
Que tal se no dia das crianças, proporcionarmos a elas um presente diferente? Nos fazer presentes em suas vidas!

*Adriana Accorsi é delegada de Polícia e secretária municipal de Defesa Social

Fonte: Jornal Diário da Manhã

Botão Voltar ao topo