O caminho da barbárie
Domingo. O repórter do POPULAR Galtiery Rodrigues flagrou 285 infrações no trânsito da capital em seis horas, percorrendo ruas e avenidas de 18 bairros, mostrando que o infrator reina como se não houvesse lei.
No mesmo dia, um flagrante impressionante do fotógrafo Wildes Barbosa mostra a brutalidade de um torcedor golpeando um policial durante mais um dia de violência no clássico Goiás e Vila Nova. O policial representa a lei e nem isso intimidou o agressor.
Segunda-feira. Operários de um prédio no Setor Alto da Glória espancaram um adolescente e o amaram a uma grade depois que ele tentou sem sucesso roubar a motocicleta de um deles. Os “justiceiros” também ignoram a lei para fazer justiça com as próprias mãos.
No mesmo dia a revolta dos usuários com atraso dos ônibus chega ao clímax e o Terminal da Praça da Bíblia virou uma praça de guerra, resultando em várias prisões. Neste caso o poder público e as empresas por ele autorizadas a operar o sistema passam por cima da lei, pois não cumprem a obrigação de garantir a oferta de um de transporte de qualidade.
Terça-feira. Policiais civis, um dos principais agentes da lei em um Estado de Direito, invadiram o Palácio Pedro Ludovico, quebraram portas e assustaram servidores e cidadãos para exigir o cumprimento de uma reivindicação trabalhista. Também neste dia, mais dois ladrões foram vítimas de “justiceiros” em diferentes bairros da capital.
Quinta-feira. A polícia prendeu um traficante acusado de vender 200 kg de cocaína por mês, inclusive no período em que estava no presídio. Além de comandar seu negócio da cadeia, ele ainda havia montado uma “cantina” na ala onde estava preso. Um caso que confirma a série de reportagens do POPULAR de meados de janeiro, revelando que os presos dominam os presídios, com regras próprias, uma afronta perigosa à lei e a segurança da sociedade.
Em meio a esse noticiário angustiante, O POPULAR publicou, quinta-feira, entrevista com o diretor José Padilha, o mesmo deTropa de Elite 1 e 2, que agora volta às telonas com Robocop – O Policial do Futuro, com a seguinte reflexão: “A gente vive à beira da barbárie. A segurança pública é uma barbaridade, o sistema educacional é uma barbaridade e o sistema de saúde é bárbaro no pior dos sentidos. O transporte público é ruim e caro e a corrupção graceja”, resultado da “incapacidade repetida da classe política para organizar o País”.
Como sair deste impasse? As manifestações de rua pareciam um caminho, mas elas também tomaram o rumo da violência no encontro dos “black blocs com os black bopes”, uma ironia de Padilha em referência ao Bope, um batalhão da PM carioca. Tudo isso acontece em ano eleitoral, que dificilmente levantará um debate à altura da gravidade desses problemas, pois os políticos pensam 24 horas por dia em se manter no poder e não em se capacitar para organizar o país.
CILEIDE ALVES é editora-chefe do Jornal O Popular.
Fonte: Jornal O Popular
