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O DEVER DE SER PESSIMISTA

Edemundo Dias de Oliveira Filho
Edemundo Dias de Oliveira Filho

(O dever cívico de ser pessimista na era da hipermodernidade digital: da crítica bobbiana à idiotização da política e à escassez de estadistas — com Hannah Arendt)

Edemundo Dias de Oliveira Filho – Advogado. Especialista e Mestre em Segurança Pública e Políticas Públicas. Escritor de 25 obras publicadas.

Resumo Partindo do ensaio de Norberto Bobbio “O dever de sermos pessimistas” (1977), este artigo atualiza a noção de pessimismo da inteligência como dever cívico-moral diante da degradação contemporânea da política. Argumenta-se que os efeitos conjugados da revolução digital, da hipermodernidade (Lipovetsky) e das dinâmicas das redes sociais produziram uma idiotização progressiva do discurso público, a rarefação de figuras com estatura de estadista e a erosão das condições de deliberação racional. À análise bobbiana acrescenta-se o diagnóstico de Hannah Arendt sobre a thoughtlessness (ausência de pensamento), a banalidade do mal, o declínio do espaço público e a solidão da sociedade de massas. Mobilizam-se ainda Gilles Lipovetsky, Byung-Chul Han e Neil Postman. O pessimismo racional não implica resignação, mas vigilância crítica e recusa da euforia tecnoutópica. Conclui-se que o intelectual e o cidadão responsáveis têm o dever de diagnosticar sem concessões o estado atual da representação política e da esfera pública digital, como condição prévia de qualquer ação reformadora.

Abstract Starting from Norberto Bobbio’s 1977 essay “The Duty to Be Pessimists,” this article updates the notion of the pessimism of the intellect as a civic-moral duty in the face of the contemporary degradation of politics. It argues that the combined effects of the digital revolution, hypermodernity (Lipovetsky), and the dynamics of social networks have produced a progressive idiotization of public discourse, the scarcity of figures with the stature of statesmen, and the erosion of the conditions for rational deliberation. To Bobbio’s analysis is added Hannah Arendt’s diagnosis of thoughtlessness, the banality of evil, the decline of the public realm, and the loneliness of mass society. The article also draws on Gilles Lipovetsky, Byung-Chul Han, and Neil Postman. Rational pessimism does not imply resignation, but critical vigilance and the rejection of techno-utopian euphoria. It concludes that the responsible intellectual and citizen have the duty to diagnose without concessions the current state of political representation and the digital public sphere, as a prior condition for any reformative action.

Palavras-chave: Norberto Bobbio; Hannah Arendt; pessimismo da inteligência; thoughtlessness; hipermodernidade; idiotização política; redes sociais; espaço público; estadistas.

  1. Introdução: o legado bobbiano e a urgência de sua reatualização

Em 15 de maio de 1977, Norberto Bobbio publicou o artigo “O dever de sermos pessimistas”, posteriormente incluído em As ideologias e o poder em crise. Obra lida e relida por este articulista. Diante da desagregação institucional italiana, da penetração mafiosa e da baixa qualidade da classe política, Bobbio afirmava que o homem de razão tem o dever civil de ser pessimista. Não se tratava de derrotismo nem de resignação, mas de pessimismo da inteligência compatível com o otimismo da vontade: Gritou bem alto o intelectual italiano:

  • “só um pessimismo radical da razão pode despertar com uma sacudidela aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros”.

Bobbio distinguia cuidadosamente esse dilema: o pessimista teme o pior porque deseja ardentemente o melhor; o derrotista se alegra com o pior. O otimismo fácil era visto como forma de infatuação incompatível com o exercício da razão. Essa postura — “iluminista pessimista” — atravessa toda a sua obra.

Quase meio século depois, a angústia que animava Bobbio não apenas persiste, mas se agrava sob novas condições estruturais. A revolução da internet, a consolidação da hipermodernidade e a colonização da esfera pública pelas redes sociais produziram efeitos deletérios sobre a qualidade da representação política, sobre a figura do estadista e sobre o próprio comportamento social e midiático.

Hannah Arendt oferece recursos teóricos decisivos para aprofundar essa angústia interior: a thoughtlessness (ausência de pensamento), a banalidade do mal, o declínio do espaço público e a solidão característica da sociedade de massas.

Assim, o presente texto propõe suscitar uma reatualização rigorosa do dever bobbiano, articulando-o ao pensamento arendtiano e a diagnósticos contemporâneos da cultura e da política, porquanto essa angústia dialética também consome este modesto escriba do Planalto Central ao ver o quadro atual da política brasileira, mormente, diante das eleições gerais em curso no Brasil.

  1. O pessimismo bobbiano como categoria ético-política

Para Bobbio, o pessimismo não é mera disposição afetiva, mas postura cognitiva e moral. Em Politica e cultura e em textos posteriores, ele insiste que o otimismo comporta “uma certa dose de infatuação” e que o homem de razão não deve ser infatuado.

O pessimismo, ao contrário, torna a operosidade “mais tesa e diritta allo scopo”. A fórmula do “pessimismo da inteligência e otimismo da vontade” é retomada, mas com ênfase no primeiro termo como dever cívico.

No contexto italiano dos anos 1970, esse dever respondia à combinação de crime organizado, violência política e degradação da classe dirigente. Bobbio não negava a possibilidade de superação da crise; negava, porém, o direito de subestimá-la. A mesma lógica se aplica hoje: o reconhecimento lúcido da gravidade da situação não exclui a esperança de superá-la, mas a condiciona à recusa de ilusões.

  1. Hannah Arendt: a angústia diante da thoughtlessness e do declínio do mundo comum

Hannah Arendt fornece o complemento filosófico mais potente à consternação bobbiana. Em Eichmann em Jerusalém (1963), ela identifica na figura de Adolf Eichmann não a radicalidade demoníaca do mal, mas a sua banalidade: a incapacidade de pensar, de julgar a partir do ponto de vista do outro, de manter o diálogo interior consigo mesmo (“os dois-em-um”).

A thoughtlessness não é estupidez, mas ausência de reflexão; é a adesão automática a clichês e a ordens sem jamais interrogar o sentido do que se faz. “A incapacidade de pensar […] está intimamente ligada à incapacidade de julgar”.

Essa ausência de pensamento é o solo fértil tanto do mal banal quanto da degradação política contemporânea. O homem de razão — aquele a quem Bobbio atribui o dever de ser pessimista — experimenta uma angústia específica: a de viver num mundo em que a atividade do pensar e do julgar se tornou rara e, muitas vezes, ridicularizada. Arendt insiste que o pensar, embora não produza normas morais prontas, atua como freio: quem se habitua ao diálogo interior tende a recuar diante de atos com os quais não poderia conviver.

Em A condição humana (1958), Arendt diagnostica o declínio do espaço público e a ascensão do “social”. A política autêntica — o reino da ação e da pluralidade, onde os homens aparecem uns aos outros como iguais e iniciam algo novo — é progressivamente engolida pela administração da vida e pelo consumo. A sociedade de massas produz solidão (isolamento sem a possibilidade de solidão criativa), atomização e a perda do “mundo comum”. O ideal do sujeito totalitário, escreve ela, não é o fanático convencido, mas aquele para quem a distinção entre fato e ficção, verdadeiro e falso, deixou de importar.

A crise da cultura e da educação, analisada em Entre o passado e o futuro, aprofunda o diagnóstico: a cultura de massa transforma os objetos culturais em meros bens de consumo e entretenimento; a educação progressista, ao recusar a autoridade e a transmissão do mundo, infantiliza os jovens e os prepara mal para a responsabilidade política. O resultado é a erosão da capacidade de julgamento — exatamente a faculdade de que o estadista e o cidadão responsável necessitam.

A angústia interior do pensante contemporâneo encontra, em Arendt, uma formulação precisa:

  • É a angústia do ser pensante que constata a rarefação do espaço onde a pluralidade, a ação e o julgamento ainda são possíveis. Não se trata de nostalgia reacionária, mas de lucidez diante de um processo de “desmundanização” (worldlessness).
  1. Hipermodernidade, aceleração e erosão do sentido

Gilles Lipovetsky caracterizou a hipermodernidade como radicalização e exacerbação dos princípios da modernidade: hiperconsumo, hiperindividualismo, hipertecnologia e hiperaceleração. Diferentemente da pós-modernidade (que sugeria ruptura), a hipermodernidade aprofunda a lógica moderna sem freios estruturantes anteriores. O indivíduo hipermoderno vive sob a pressão do “sempre mais”, da fluidez e da incerteza, marcado simultaneamente por hedonismo e ansiedade.

Com efeito, essa configuração cultural tem consequências diretas para a política. A temporalidade hipermoderna privilegia o presente imediato, o espetáculo e a performance em detrimento da duração, da responsabilidade histórica e da construção institucional de longo prazo.

O estadista clássico — figura capaz de articular horizonte temporal alargado, prudência e visão de conjunto — torna-se anacrônico em um ambiente que valoriza a reatividade, a viralidade e a gratificação instantânea. Arendt já antecipara esse processo ao descrever a perda do mundo comum e a substituição da ação política pela administração e pelo consumo.

  1. A sociedade do cansaço, a psicopolítica e as redes sociais

Byung-Chul Han descreveu a passagem da sociedade disciplinar (Foucault) para a sociedade do desempenho e do cansaço. O sujeito contemporâneo não é reprimido por instâncias externas, mas se autoexplora sob o imperativo da positividade, da produtividade e da auto-otimização. A depressão e o burnout surgem como patologias da excessiva positividade.

Nas redes sociais, essa lógica se radicaliza. Han analisa a psicopolítica como forma de poder que atua sobre a psique por meio da sedução, dos likes e da quantificação dos afetos. As plataformas produzem bolhas de eco, superficialidade comunicativa e erosão da atenção profunda necessária à deliberação democrática. O “enxame” digital substitui a esfera pública racional por uma circulação acelerada de afetos e de conteúdo fragmentado.

Neil Postman, já em 1985, diagnosticara o processo de transformação do discurso público em espetáculo sob o domínio da televisão (Amusing Ourselves to Death). A tese de que “a forma exclui o conteúdo” e de que a política se torna show business mostrou-se profética na era das redes: a política é julgada menos pela substância argumentativa do que pela capacidade de gerar engajamento emocional e viralidade.

Aqui a convergência com Arendt é evidente: a thoughtlessness se dissemina quando o julgamento é substituído pelo clichê, pela reação afetiva imediata e pela impossibilidade de “pensar a partir do ponto de vista do outro”. As redes amplificam a solidão arendtiana sob a aparência de hiperconexão.

  1. Idiotização da política e ausência de estadistas: exemplos contemporâneos

A conjugação desses processos resulta no que se pode chamar de idiotização da política: a progressiva redução da complexidade do discurso público, a valorização do performático sobre o substancial e a dificuldade de sustentar figuras com estatura de estadista.

O estadista faz política pensando na próxima geração, enquanto o político comum age sempre pensando na próxima eleição. Um constrói o futuro e o outro só enxerga a urna. Ser estadista pressupõe capacidade de pensar o longo prazo, de articular interesses conflitantes sob princípios superiores e de resistir às pressões imediatistas da opinião pública mediatizada. Na hipermodernidade digital, tais qualidades são sistematicamente desincentivadas.

Exemplos contemporâneos ilustram com clareza essa dinâmica. No Brasil atual proliferam avatares políticos criados por inteligência artificial — como a personagem “Dona Maria”, retratada como uma senhora negra idosa — que renderam centenas de vídeos com ataques simplistas e polarizados a figuras públicas e instituições, acumulando dezenas de milhões de visualizações. Em muitos casos, não há qualquer indicação de que se trata de conteúdo sintético.

Perfis semelhantes surgiram em ambos os polos do espectro político, transformando a opinião pública em teatro de personagens fictícios que simulam espontaneidade popular. Deepfakes e montagens geradas por IA passaram a circular como se fossem evidências factuais, corroendo a distinção entre real e fabricado — exatamente o terreno que Arendt identificava como propício à perda da capacidade de julgamento.

Dados empíricos reforçam a dimensão quantitativa dessa bestialização. Estudos longitudinais sobre telejornais americanos, por exemplo, mostram que o tempo dedicado a questões políticas substantivas caiu pela metade nas últimas cinco décadas, enquanto o espaço para soft news e entretenimento dobrou.

Pesquisa recente sobre o Congresso dos EUA revelou que dedicando apenas 5% da comunicação a insultos pessoais um legislador obtém cobertura midiática equivalente à de quem dedica 45% ao debate de políticas.

No Brasil, a política é o tema mais associado a fake news (43% da população), os extremos geram a maior parte do volume de menções políticas nas redes e mais de seis em cada dez declarações de atores políticos checadas em ciclos eleitorais continham algum grau de distorção. A lógica do engajamento transformou escândalos, fofocas e polarização afetiva no principal combustível da cobertura, reduzindo drasticamente o espaço para a deliberação racional sobre políticas públicas.

Como uma novela pastelona, a política brasileira assemelha-se a um drama de proporções imprevisíveis, marcado por crises institucionais recorrentes, reviravoltas jurídicas e espetáculos midiáticos que capturam a atenção pública, ofuscando por vezes o debate substancial sobre políticas públicas e o desenvolvimento socioeconômico do país.

No âmbito institucional, estudos sobre o Senado brasileiro revelam o encurtamento sistemático dos discursos parlamentares e a redução das interrupções e debates reais, em favor de falas moldadas para cortes virais nas redes.

Os plenários do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal transformaram-se, cada vez mais, em estúdios de produção de conteúdo digital. Debates eleitorais e confrontos políticos são frequentemente reduzidos a formatos de entretenimento (“um contra vinte”, “rage bait”), nos quais a performance e a geração de engajamento emocional prevalecem sobre a argumentação substantiva.

Nesse diapasão, a política passa a ser consumida como espetáculo de curta duração, confirmando a tese de Neil Postman de que, quando o meio privilegia o entretenimento, o conteúdo político se degrada.

Internacionalmente, observa-se fenômeno análogo: a ascensão de campanhas centradas em memes, vídeos curtos e influencers (reais ou sintéticos), a substituição do discurso programático por slogans e reações afetivas, e a elevação de métricas de engajamento (curtidas, visualizações, compartilhamentos) a critério principal de sucesso político. A figura do estadista — aquela capaz de sustentar a complexidade, a temporalidade longa e a responsabilidade pelo mundo comum — torna-se residual. Em seu lugar, emergem, aos montes, o político-influencer, cuja existência depende da capacidade de alimentar continuamente o fluxo algorítmico.

A baixa qualidade da representação política, já denunciada por Bobbio no contexto italiano, adquire, assim, novas e elastérias dimensões:

  • A captura da agenda por ciclos de atenção de curta duração, a polarização afetiva, a difusão industrial de desinformação e a transformação do cidadão em consumidor de baixíssimo nível de conteúdo político.
  • O “sono da razão” de que falava Bobbio agora se manifesta sob a forma de sobrecarga informacional, de esgotamento atencional e, sobretudo, de thoughtlessness

Enquanto Arendt nos ensina que:

  • A ausência de pensamento não é apenas um defeito individual: quando se torna estrutural — amplificada por algoritmos, avatares sintéticos e a lógica do espetáculo —, prepara o terreno para a perda da capacidade coletiva de distinguir fato de ficção e de julgar com responsabilidade.
  1. O dever atualizado de ser pessimista

Diante desse quadro, o dever bobbiano permanece vigente e se aprofunda, enriquecido pela exigência arendtiana de pensar e julgar. Ser pessimista significa:

  • recusar a euforia tecnoutópica que apresenta as plataformas digitais como naturalmente democratizantes;
  • diagnosticar sem concessões a erosão das condições de deliberação racional e a disseminação da thoughtlessness;
  • distinguir o pessimismo da inteligência (alerta e vigilância) do derrotismo (aceitação complacente ou desejo de catástrofe);
  • manter a exigência de responsabilidade intelectual e cívica mesmo quando as condições estruturais parecem adversas;
  • cultivar o diálogo interior e a capacidade de julgamento como antídotos à banalidade do mal e à idiotização da política.

Esse pessimismo não exclui de modo nenhum a ação. Ao contrário: só quem reconhece a gravidade do diagnóstico pode formular respostas proporcionais. A crítica da idiotização política e da escassez de estadistas é condição de possibilidade de qualquer projeto de reconstrução da esfera pública e da representação democrática.

Arendt e Bobbio convergem aqui: a lucidez pessimista é o primeiro gesto de resistência.

  1. Conclusão

Norberto Bobbio formulou, em circunstâncias dramáticas, o dever de ser pessimista como exigência da razão e da responsabilidade cívica. Hannah Arendt fornece a profundidade filosófica que permite compreender a angústia interior do pensante contemporâneo: a thoughtlessness, o declínio do mundo comum e a solidão da sociedade de massas. A hipermodernidade digital, longe de invalidar esses diagnósticos, os radicaliza. A idiotização da política, a colonização da esfera pública pelas lógicas do desempenho e do espetáculo, e a rarefação de figuras com estatura de estadista constituem o horizonte no qual o intelectual e o cidadão responsáveis devem se situar.

O pessimismo da inteligência continua a ser, hoje, um dever civil. Não como convite à paralisia, mas como recusa lúcida da infatuação e como condição de uma vigilância crítica sem a qual nenhuma reconstrução democrática séria é possível.

Pensar — no sentido arendtiano — e ser pessimista — no sentido bobbiano — são duas faces da mesma exigência: não dormir o sono da razão.

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007 [1958].
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999 [1963].
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
BOBBIO, Norberto. As ideologias e o poder em crise. Brasília: EdUnB, 1994 [textos originais de 1977-1981].
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.
LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.
POSTMAN, Neil. Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business. New York: Penguin, 1985.
SILVA-HERZOG MÁRQUEZ, Jesús. “Bobbio y la sabiduría del pesimismo”. Isonomía, n. 20, 2004.

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